quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Passageiro

Fim de tarde. Ônibus. Pessoas. Situações.
Essas coisas, creio que não seja só comigo, me fazem parar pra pensar. Viajar na maionese mesmo. Não sei, mas meus textos, muitas vezes esquecidos, sempre me surgem não só antes de dormir, como também no trânsito ou simplesmente lavando a louça.
Enfim, nessa tarde citada acima, eu estava no terminal, dentro do ônibus, esperando dar a hora de sair. Lá, observava (discretamente, acho) as pessoas que entravam no automóvel. Não vou entrar em detalhes pois acredito que não sou só eu que faço isso, assim como tantas vezes indagamos “qual o sentido da vida” ou “por que estou aqui”. Questionamentos interiores relutantemente inúteis.
Acho que não comentei ainda, mas não gosto muito de pessoas. Gosto, obviamente. Só que não são poucas as que me irritam, visto o que elas têm se tornado com o passar do tempo. Partindo disso, comecei a pensar em mim. E partindo de mim, comecei a pensar em sentimentos. E de todos os sentimentos que analisei naqueles 15 ou 20 minutos dentro daquele ônibus, quero ressaltar aqui o amor.
Outra coisa que me irrita é o amor. Só a palavra soa estranha pra mim, ora piegas, ora brega. Estranha, de fato. Outra coisa. Nunca consigo relacionar o “estar apaixonado” com o “estar amando”. Já me apaixonei? Sim, ou não. Já amei? Sim. Ou não! Sei lá. Prefiro pensar que nunca amei e que um dia vai aparecer alguém com o formato da moldura que criei na minha cabeça. Mas sei lá, isso me parece egoísta demais. Tá vendo como é estranho? Não sei se o que convém seja a metade da laranja, a alma gêmea, ou o oposto. O pólo positivo para o meu negativo.
É. Triste. Depois de ficar relembrando e quebrando a cabeça sobre minha vida amorosa, decidi mudar (!). Decidi esquecer todos os meus affairs e as antigas paixonites que poderiam ter virado amor, caso eu não fosse tão “eu”, e partir para uma nova era.
Mas então. A minha mudança. Decidi me exilar. Acabar com essa mania complexa e irritante de viver e se relacionar, sempre com aquela palavrinha chata soando na cabeça. Amor, amor, amor... Urg.
Pensei em estudar, me formar, e estudar outra vez. Depois disso, viajar, conhecer lugares e pessoas. Mudar-me para uma cidade calma, perto da praia, se possível. Terminar a vida assistindo a bons filmes, lendo bons livros, bebendo bons vinhos e criando gatos. Tenho um vizinho que creio que fez isso. E, às vezes, o invejo.
Bom, depois de tomar tantas decisões, decidi parar de decidir. Não sei, mas odeio pensar, pensar, e chegar numa conclusão que no fundo não conclui porcaria alguma. Olhei pela janela e vi os outros ônibus estacionados ao lado do meu. Um deles sorriu pra mim.
Voltei a lembrar dos meus amores perdidos e dos aleatórios. Lembrei do vinho, do meu vizinho e dos gatos. Ah, viver em exílio sempre me pareceu tão charmoso. Mas a solidão é outra coisa que acaba me irritando. Lembrei, também, de um poema que adoro.
Finalmente chegou a hora. Meu ônibus começou a andar lentamente para me levar de volta à vida. Dei outra olhada para fora e vi o outro, ainda, a sorrir.

“E se um dia hei de ser pó, cinza e nada
Que seja minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...”
(Amar!, Florbela Espanca)

8 comentários:

disse...

Nossa, adorei. Super me identifiquei com a parte do 'vinho e gatos' e depois o fator 'solidão irritante'. Sendo assim, acho bom, quem sabe um projeto de amor que curta vinho e gatos.. um meio termo..seria interessante! hahahaha

Juju tá de Pára(bens)! Age.

beijoo

Bruno disse...

Paremos de esperar um amor idealizado!!

Rubens Rozsa Neto disse...

São seus textos o único motivo pelo qual visito o blog, são incríveis, pensamentos e reflexões, na porta do ônibus, assim como eu já fiz e continuo fazendo.

Parabéns mais uma vez Ju, VOCÊ tem talento :D

railer disse...

a gente tem que deixar as coisas seguirem seu rumo, mas temos que ter planos para não nos sentirmos perdidos.

Tayse Marques disse...

Adorei, Ju!
Aliás, adoro o Blog! TODOS talentosos!

Beijinhos ^^

Tamyy disse...

Muito "eu" ajsuhaushauha.
Parabéns amiga.

Carla Ruthes disse...

Ju, adorei. Esses pensamentos muitas vezes são bombardeados por aqueles que vivem apoiados em ilusões e é difícil falar disso assim como você fez -a cara a tapa-. Me identifico, você sabe...parabéns!

мαησeℓα disse...

Ju, minha nova amiga.. hehe, graças ao Bruno..
Amei esse texto, e me identifiquei de certa forma... a indecisão.. o querer e não querer das coisas... a incerteza.. amar.. não querer amar... ou seja a constante metáfora que somos e vivemos...
Lindo, lindo o texto, adorei mesmo..
Beijos :*