quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Viagem

Eis a minh'alma, as asas palpitando

Como a saudade de agitado lenço

O segredo dos longes procurando...”

(Cruz e Souza, Asas Abertas)


Ontem li, como de costume, trechos de alguns textos antes de ir dormir. Gosto de alguém me contando algo, ensinando algo, ou apenas expressando algo, para que assim, eu possa esquecer meus problemas habituais e velejar descansadamente no meu sono apressado.

Quando não leio nada, acabo tendo infinitas discussões dentro de mim ao deitar minha cabeça no travesseiro. Já quando leio, não sei, mas tenho a impressão de sempre ter uma conversa franca, um desabafo que me extrai todo peso de um dia (não?) cumprido.

Bom, tendo liberado todas as minhas energias, pousei minha cabeça no lençol frio de minha cama. De olhos fechados, escutando apenas o silêncio de meu quarto, lembrei de como era bom não ouvir absolutamente nada. Quero dizer, quando jovem, costumava ir à praia sozinha. Apenas eu e meus pensamentos. Mas, quando eu pisava naquela areia úmida, nem eles ousavam soltar um gemido sequer.

A palavra praia nunca me agradou. Sempre me remeteu à um dia de domingo. À um sol de rachar e cem pessoas, no mínimo, tentando ocupar um mesmo espaço. Espaço este “projetado” somente para 60 pessoas. Bom, creio que meu lado misantropo sempre foi avesso à esse tipo de situação. Mas houve um dia. Sempre há um dia.

Logo depois de me mudar, a minha primeira vez, descobri algo que me fascina até hoje. Nunca tinha sequer imaginado que a praia seria, um dia, um refúgio para minha alma fugitiva.

Era final de tarde. Havia pequenos resquícios de sol no céu azul-acizentado. Não falei com ninguém, não queria falar. Apenas peguei uma garrafa d'água e meus olhos perguntaram para meu gato se queria me acompanhar. Este apenas me olhou com fadiga e voltou a fazer o que mais sabia. Dormir.

Comecei a andar. Minhas pernas não tinham rumo, mas minha cabeça sabia muito bem aonde queria ir. Ficava pensando em quantas pessoas já fizeram esse mesmo caminho antes de mim. Quantas pessoas já andaram por essa mesma rua de areia vermelha, com pedregulhos irritantes. Até hoje meus pés praguejam aquelas pedras. Porém meus olhos agradecem, por nunca terem esquecido aquele verde que fotografavam enquanto caminhavam naquela rua.

Enquanto andava, percebia a mudança e a troca de ambientes. Primeiro casas, mato, pássaros, canto, areia, asfalto, postes, pessoas. Ao sair da minha rua, sempre dava de cara com um boteco. O cheiro do álcool e os gritos faziam meu estômago girar. Tinha também o restaurante/mercearia ao lado. A senhora que ficava naquele caixa sempre me assustou profundamente, apesar do sorriso sincero de simpatia.

Atravessei a rua e olhei de esguelha para uma enorme casa cor de abóbora. Lá moravam umas 13 ou 15 pessoas. E não eram da mesma família. Nunca entendi como aquilo funcionava, mas sempre quando passava pela frente daquela casa, ouvia os berros de uma mulher. Acho que era a dona da casa. Ou alguém sempre a atormentava, ou ela apenas gostava de falar alto. Meu estômago girava mais uma vez. Sempre agradeci por não morar naquele lugar.

Passando por muitas outras residências e vozes, cheguei no começo. Avistei uma pequena capela, e alguns bancos brancos em sua frente. Lá, estava um senhor sentado, rodeado por algumas mulheres e crianças. Ele falava, mas ninguém parecia se importar. Quando me aproximei, ele me olhou e apontou para um alto pilar de madeira à nossa frente.

Esse pau foi erguido faz mais de 50 anos. Quando eu chegava perto dele, me sentia como uma formiga. Sorri para ele, porém não entendi o que disse depois. Apenas concordei. As pessoas que o acompanhavam me olhavam incrédulas. Não entendi o porquê. Me despedi daquele senhor com um tapinha em seu ombro. Nem olhei para os outros. Não me simpatizei com nenhum.

Seguindo meu caminho, avistei um cemitério. Mas decididamente aquele lugar não me parecia um cemitério, pelo menos a idéia. Havia árvores ao seu redor. Árvores, mato. Já conseguia sentir o cheiro do mar. Decidi que quero que me plantem aqui no futuro.

Andei por mais uns 10 minutos numa estreita estradinha de terra, e como o esperado, já não ouvia mais nada. Nem o som dos carros, em a voz do senhor da capela, nem as crianças brincando, nem os berros da mulher da casa grande. Finalmente cheguei àquela areia branca. Nesse horário ela estava muito mais fina e branca que o de costume. Tirei meus tênis e comecei a caminhar lentamente.

Não havia ninguém lá. Fui até a água e molhei meus pés transparentes. Nunca gostei tanto de um lugar como daquele. Respirei, o cheiro e o estranho vazio que senti dentro de mim me agradavam explendidamente.

Procurei um lugar para repousar. Deitei-me logo, visto que não precisei perder muito tempo com minha busca. De olhos fechados, tentei ouvir alguma coisa, mas só conseguia ouvir o barulho das ondas chegando de leve, à praia.

Pensei no quando somos simples enquanto sozinhos. O quanto somos puros. Pensei no quanto somos verdadeiros diante da solidão. Palavra esta que sempre me causou temor. Mas com o passar do tempo acho que esse é um dos momentos em que mais vivi.

A praia, a areia, o mar, o cheiro, a solidão e o silêncio. O silêncio! Uma vez li que o silêncio murmura palavras perturbantes como um afago. Suspirei.

Mon silence est ma force! No meu quarto, olhava para o teto. Plano, cor do creme hidratante da minha mãe. Mas o que vi lá não era nem meu quarto, nem o creme. Mas sim o céu daquela noite em que estavam eu e meu silêncio. Não vi, senti. Pela primeira vez saciei minha sede. Infinito.

6 comentários:

Bruno disse...

Já sabias que eu havia gostado!
É, realmente, muitas vezes precisamos procurar a solidão para encontrarmos algo, ou melhor, nos encontrarmos!Bela narrativa, Jujuba!

disse...

É, o silêncio e a solidão é o "bom porém ruim" mais necessário que há...Deveria fazer parte da vida de todos,pelo menos por um tempo. Faz parte do encontro.

Adorei Jú, Adorei!

:*

Carla Ruthes disse...

Como o vazio, o pouco, o que para muitos é nada pode nos tornar plenos. É abrir-se para fora, para o novo. Dar chance para que a beleza das coisas que pensamos ser insignificantes apareçam diante dos nossos olhos e que acariciemos através de um toque recíproco por fora e por dentro: na alma.
Lindo Ju!

railer disse...

adoro praia, pra mim tem outro sentido que esse do texto. imagino sempre a água clara, refrescante e uma paz.
já conheci muitas praias. aqui no rio vou sempre em ipanema. veja aqui uma postagem do início do ano sobre isso, com um vídeo muito bacana.
http://figura220.blogspot.com/2009/02/outro-fim-de-tarde-na-praia.html

Tayse Marques disse...

Solidão, silêncio, praia... Faz parte de mim!

Very Good!

мαησeℓα disse...

Nossaaaa Ju... ja li todos seus textos desse blog, mas confesso que ate agora esse foi o que mais me tocou e o que mais gostei...
nao pela quantidade de linhas, mas pela qualidades de palavras e interpretaçoes..
novamente voce da um toque de misterio em seu texto, conflitando o real com a fantasia, instigando a cada um interpretar e imaginar tudo de um jeito diferente, isso me fascina, eu mesma nao interpreto de um jeito só, hehe...
Ameiii, amei mesmo, solidao, desta, apesar de minha idade, conheço muito bem, nao é estar sozinha, mas sim estar só por dentro, solidao é algo da alma, um momento com nos mesmos, digo que na solidao encontrei eu mesma, quem eu realmente sou, me conheci enfim atravez dela, e o silencio como voce disse 'es ma force', ele acredito que é parceiro da solidao, pois só conseguimos estar em completo silencio quando a unica coisa que nos acompanha é nossa consciencia.
Beijos de sua nova amiga [rs], Manu!